VOCÊ JÁ TEVE ALGUM SONHO QUE FICOU PARA TRÁS?

1 Sorriso
VOCÊ JÁ TEVE ALGUM SONHO QUE FICOU PARA TRÁS?

                                                                               (Cláudia Bandeira)

Um dia, numa conversa amiga, Luana me perguntouse na minha vida algum sonho teria ficado para trás. Me pegou de surpresa, puxa! Nunca tinha pensado nisso… Parei um pouco, pensei, pensei, fui no passado, lá no fundo, voltei, procurei e…nada. Será que algum dia teria sonhado algo edeixado para trás? Não me lembro não. Não é possível. Eu certamente teria sonhado alguma coisa e certamente teria deixado para trás, como todo mundo fez um dia. Mas que lástima, não consegui me lembrar…

Dei um sorrisinho meio sem graça e pensei mais um pouquinho, revirei tudo dentro de mim, abri diversas gavetas, várias pastas, entrei em arquivos confidenciais e arquivo morto, baguncei a lixeira, olhei debaixo do tapete… isso mesmo, debaixo do tapete! Tem gente que varre os sonhos e os coloca debaixo do tapete, por isso eles nunca deixam de existir e nunca se realizam… Enchem de mofo, adoecem e morrem e reencarnam…

Minha amiga esperou um pouco mais, talvez estivesse tentando se lembrar dos sonhos que ela mesma tinha deixado para trás. Mas o danado é que eu não consegui me lembrar do meu, que situação essa…logo eu tão sonhadora não conseguia me lembrar daquele sonho oculto, perdido, tão bem esquecido. “Deixe-me ver”, disse só pra dar mais um tempinho. Hum… terminar os estudos (não), conseguir um emprego… (mais ou menos), não é algo que represente um sooooonho, pra mim, emprego é a dura realidade do dever! Ou não, quem sabe?

A resposta estava demorando demais, então, pra dar mais aquele tempinho, resolvi devolver a pergunta pra ela, mas a danada era esperta e disse que tinha perguntado primeiro. Sabe, eu fiquei com uma vergonha danada de dizer que não tive nenhum sonho significativo e que tivesse deixado para trás. Só então percebi que sonhara tão pouco… fui criança pra brincar, estudei quando cresci, casei para formar família, tudo assim, organizadinho, passado a ferro e guardado dobradinho com um raminho de alfazema, pra não mofar.

Mas a essência perfumada não foi suficiente… Vi que havia traçado pra mim o que a grande maioria das pessoas havia traçado para elas mesmas: poucas aventuras, estudos, responsabilidade, estudos, alguns passeios, estudos, casamento, estudos, filhos, marido, trabalho, estudos… estudos… Será que meu sonho seria estudar indefinidamente? Não, porque esse ainda está se realizando e ela queria que eu lhe dissesse que sonho teria deixado para trás… Ô diaba insistente.

Mas, sabe de uma coisa? Essa história estava ficando comprida, comprida demais. Que chato alguém ficar perguntado por seus sonhos, ainda mais aqueles que você deixou para trás. Pensei em dizer que aquilo não era da conta dela, que era um complexo dela, uma curiosidade sem sentido, uma xeretice….mas seria tão deseducado da minha parte… Então eu diria que tinha esquecido, mas com certeza teria sonhado, e muito, só que esses sonhos não haviam sidorealizados… pronto!. Resolvi, por fim, ser sincera e disse-lhe: Minha amiga, eu nunca havia pensado nisso, você me pegou de surpresa, como é que se faz uma pergunta dessa assim, à queima-roupa? Ela ficou surpresa com a resposta, sorriu e calou-se, por fim. Fim da história! Pensava eu…

Talvez ela não quisesse mais prolongar aquela conversa, ou não quisesse que eu ficasse zangada, ou pior, decepcionada. Aceitou a minha resposta com um sorriso no cantinho dos lábios. Mudou de assunto e eu esqueci por algum tempo aquele diálogo meio que infame, infame mesmo. Mas quando fiquei sozinha, meus pensamentos foram tomados por antigas lembranças. Quando eu era criança só pensava em ficar grande e imitar tudo que os outros faziam, o que os meus pais, meus vizinhos, o que todo mundo normal fazia: constituir família. Mas, e os sonhos? Não, não tinha sonho nenhum, fazer o que todos fazem não é sonho, é quase uma obrigação, um condicionamento, e, àquela altura da vida, essa questão me inquietava.Nessa vida, para não sermos tachados de estranhos,temos que balir como balem todos os carneiros. Poucos têm coragem de destruir a ignorância organizada, que é fazer sempre tudo igual, pra não chamar a atenção, não ser censurados ou julgados por ter sonhos diferentes dos sonhos dos outros.

E assim, minhas amigas, o resto da noite passei em claro.

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