Tiros na escola,uma nova didática?

Tiros na escola, uma nova didática?
Rossandro Klinjey

Eric Harris, 18 anos, Dylan Klebold, 17, Jeff Weise, de 16 anos, Asa Coon, 14 anos, Victor Córdova, 13 anos, Kipland Kinkel, 15 anos e mais recentemente Robert Butler Jr., de 17 anos. O que estes nomes e tantos outros têm em comum? São jovens que num dia qualquer de suas vidas foram à escola, mas com outras intenções. Lá chegando sacaram uma arma, uma submetralhadora ou algo assim e mataram pessoas, sejam elas colegas de classe, professores, funcionários e diretores das escolas onde estudavam. Em menos de 10 anos, mais de 100 pessoas morreram em ataques nas escolas dos EUA.

Atribuir esse tipo de crime apenas ao fato de que a compra de armas é facilitada nos Estados Unidos, é reduzir o problema a apenas uma variável. Comumente após um evento trágico como este, vemos as redes de TV americanas entrevistando vizinhos, amigos, colegas de escola, parentes que emitem um discurso assustadoramente padrão que orbita em duas polaridades opostas. Uns dizem que se tratava de uma pessoa boa, calma e que jamais suspeitaram de que poderia fazer isso ou, o contrário, dizem que era uma pessoa retraída, magoada, estranha e que “sabiam” que um dia algo do tipo pudesse vir a acontecer.

Esses jovens também têm em comum uma baixa auto-estima e são constantemente vítimas de bulling nas escolas, tornando-se solitários, por isso mesmo mais vulneráveis.

A divisão de grupos nas escolas americanas beiram ao sistema de castas da Índia. Vejamos como se dividem: temos os populares, geralmente jovens bonitos e que são praticantes de algum esporte na escola, no caso dos rapazes, ou líderes de torcida (cheerleader) no caso das meninas (o astro do futebol americano Tom Brady, esposo da modelo Gisele Bündchen faz parte desse grupo). Temos também os Nerds, geralmente jovens que se dedicam ao estudo como única válvula de escape, não são atraentes fisicamente então investem no intelecto (Bill Gates fundador da Microsoft e Mark Zuckerberg fundador do facebook e Larry Page e Sergey Brin fundadores do Google são exemplos clássicos de Nerds). Temos os afro americanos (afro-american), que são os americanos de pele negra, notem que não são chamados de americanos, mas de afro americanos, e os brancos não são chamados de white american e sim de americanos (o presidente do Estados Unidos Barak Obama, a apresentadora de TV Oprah Winfrey e os atores negros Morgan Freeman,Morgan Freeman,Morgan Freeman Denzel Washington fazem parte desse grupo). Temos os orientais (oriental), qualquer jovem de olhinho puxado, seja filipino, malaio, coreano, japonês ou chinês são reduzidos a uma única categoria e finalmente os chicanos, grupo que inclui majoritariamente os mexicanos, mas no qual se inclui qualquer latino americano, tenha nascido no México ou na Patagônia, no sul da Argentina, abrangendo também os brasileiros. Claro que existem outros subgrupos.

É como se a América só fosse dos americanos brancos, e todos os demais fossem intrusos. Esses grupos dificultam muito o trânsito entre os membros de outros grupos. Quem de nós já não assistiu numa dessas sessões da tarde ao filme Namorada de Aluguel (Título Original: Can’t Buy Me Love), de 1987, filme no qual Ronald Miller (Patrick Dempsey) um jovem tímido, que sonhava em ser um garoto popular no colégio descobre que Cindy Mancini (Amanda Peterson), uma garota linda e desejada por todos, estava precisando de 1000 dólares, então ele sugere emprestar o dinheiro a ela e em troca ela deverá fingir ser sua namorada. Ela topa e, com sua ajuda, ele acaba se tornando um dos garotos mais populares do colégio, ou seja ele teve que comprar alguém pra mudar de “casta”.

O nível de tensão entre estes grupos é alto, não que não existam tensões em escolas do mundo todo, inclusive aqui no Brasil, mas o caso do Estado Unidos é paradigmático. Lá o nível de competição chega a extremos de modo que alguns jovens não suportam a tensão e culminam por cometer estes assassinatos seguidos, em alguns casos, de suicídio.

A prova de que se tratava de uma realidade mais presente nos Estados Unidos é que na fronteira norte do país, no Canadá, quase não havia casos como estes, ou mesmo na fronteira sul, no México, onde também não se registravam casos assim. Entretanto, nos últimos anos estamos assistindo a proliferação, inclusive aqui no Brasil, de histórias tristes como essas. O que fazer? Assistir passivos? As escolas sãos as primeiras instituições sociais que recebem as pessoas que vêm das famílias e sentem o reflexo da falência dos modelos de educação doméstica. Esses eventos são sinais que devemos escutar, não ignorar. Não há respostas simples, mas um chamado a refletir. Os jovens são muito vulneráveis e o mundo cada vez mais árido e os rituais de passagem da adolescência cada vez mais complexos e muitos simplesmente não conseguem.

Fraternidade pode parecer uma palavra cansada, piegas ou ingênua para alguns, mas não tenho dúvidas que continua sendo o único valor que poderá mudar esse e outros panoramas lamentáveis. Só existe uma única forma de construirmos ela, começando em nós.

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